{"id":739,"date":"2025-05-10T16:03:00","date_gmt":"2025-05-10T19:03:00","guid":{"rendered":"https:\/\/joaodebarro.blog.br\/site\/?p=739"},"modified":"2025-05-10T16:03:20","modified_gmt":"2025-05-10T19:03:20","slug":"a-mordida-do-camelo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaodebarro.blog.br\/site\/contos-sufis\/a-mordida-do-camelo\/","title":{"rendered":"A Mordida do Camelo"},"content":{"rendered":"\n<p>Era um vez, a menos de mil milhas daqui, um menino que, apesar de sua pouca idade, acumulara uma grande experi\u00eancia no pastoreio de suas ovelhas. Suas pernas eram finas por\u00e9m fortes. Seus p\u00e9s descal\u00e7os eram endurecidos pela constante car\u00edcia das areias do deserto e em seu olhar havia mais luz do que no ouro refletido pelo c\u00e9u do deserto, quando o p\u00f4r do sol diz aos homens que a noite est\u00e1 chegando.<\/p>\n\n\n\n<p>Seu nome era Yadir. Ao p\u00f4r do sol ele sempre descia da montanha com seus animais para buscar abrigo em sua pequena casa. O dia de trabalho era duro. Todos os dias ele tinha que procurar um novo pasto para alimentar suas ovelhas&nbsp; e ent\u00e3o ele tinha que levar os animais para ali pastarem.&nbsp; Em troca de todo esse esfor\u00e7o, em sua sacola de l\u00e3, raras vezes havia mais do que um bocado de p\u00e3o, o suficiente para amainar a fome, e somente a \u00e1gua essencial para refrescar os seus l\u00e1bios.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma noite, num encontro de cameleiros, Yadir ouviu que todo aquele que carrega Deus em seu cora\u00e7\u00e3o fora \u201cmordido pelo camelo\u201d, e que tal mordida n\u00e3o encontra cura. No come\u00e7o seria dolorida, depois doce, e no final da vida, quando o corpo abandonasse a terra, a ess\u00eancia do homem iria para sempre deliciar-se nos pastos das estrelas.<\/p>\n\n\n\n<p>Naquela noite Yadir sonhou que estava sendo perseguido por cem camelos.<\/p>\n\n\n\n<p>Muito tempo se passou at\u00e9 que um dia, ao nascer do sol, Yadir instintivamente ajoelhou-se e beijou as areias. De seus l\u00e1bios brotaram palavras de f\u00e9 e seu rosto adolescente, como uma b\u00fassola marinha, encontrou o Leste.<\/p>\n\n\n\n<p>A mordida do camelo estava em seu cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir desse dia, Yadir come\u00e7ou a aprender muitas coisas novas\u00a0 com uma clareza incomum. Na noite do deserto as estrelas sussurravam em seu ouvido sobre o tempo e a eternidade. Quando o vento soprava suavemente, ele segredava contos em seus ouvidos e o seu tra\u00e7o nas areias lhe ensinava estranhos padr\u00f5es geom\u00e9tricos.<\/p>\n\n\n\n<p>Num p\u00f4r do sol vermelho o vento levantou as areias, fazendo-as girar em rodopios surpreendentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Yadir aprendeu a dan\u00e7ar.<\/p>\n\n\n\n<p>O seu cora\u00e7\u00e3o sangrava cada dia mais quando Yadir abandonou o deserto. O sol deixou o horizonte, um fraco reflexo dourado iluminou seu rosto por alguns instantes.&nbsp; Ent\u00e3o, na aurora brilhante, diante de seus olhos surpresos, a cidade apareceu.&nbsp; Suas c\u00fapulas brilhantes atravessavam suas pupilas em cascatas com imagens inesperadas. Yadir teve medo. Mas o vento, que cantava suavemente para ele, fortaleceu o seu esp\u00edrito. Os altos e delgados minaretes acalmaram as batidas do seu cora\u00e7\u00e3o e ele entrou nessa cidade ruidosa com os olhos lan\u00e7ando fa\u00edscas de espanto.<\/p>\n\n\n\n<p>Aquela mudan\u00e7a de vida foi transcendental para Yadir. Depressa ele arrumou um emprego, tingindo l\u00e3, e em seguida aprendeu a arte da tecelagem. O come\u00e7o foi dif\u00edcil: suas m\u00e3os n\u00e3o eram t\u00e3o habilidosas como as de seus companheiros, mas seus olhos, acostumados a ver o horizonte do deserto, enxergavam al\u00e9m dos desenhos complicados das mensagens geom\u00e9tricas dos tapetes. Yadir fez um para si mesmo e naquela noite, ao termin\u00e1-lo, um velho mestre tapeceiro deu a ele uma rosa branca incomum.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois daquela noite, a vida de Yadir se tornou muito intensa. Ele cuidava e respeitava seu corpo. Ele aprendeu a queimar lindos azulejos e os arranjava em padr\u00f5es que nunca pareciam ficar est\u00e1ticos. Ele aprendeu a entrela\u00e7ar significado \u00e0 sua caligrafia graciosa. Ele aprendeu a usar a espada. Ele projetava jardins. E, uma vez, seu olhar encontrou um par de olhos femininos e\u2026 Yadir aprendeu o amor.<\/p>\n\n\n\n<p>Yadir estabeleceu um lar que se manteve por muitos anos felizes. Ent\u00e3o, um dia, Ele, que cria todos os desenhos, decidiu que Yadir deveria ficar sozinho de novo.<\/p>\n\n\n\n<p>Yadir aprendeu a chorar.<\/p>\n\n\n\n<p>A manh\u00e3 seguinte n\u00e3o viu os joelhos de Yadir afundando nas areias,\u00a0 o seu rosto n\u00e3o procurou o Leste e seus l\u00e1bios esqueceram as palavras devotas. Ele abandonou a luz das mesquitas e come\u00e7ou a habitar em lugares escuros. Suas pernas, acostumadas \u00e0 dan\u00e7a, esqueceram o ritmo e o tambor de seu cora\u00e7\u00e3o deixou de soar para elas. Ele ignorou a habilidade de suas m\u00e3os, e sua respira\u00e7\u00e3o deixou de percorrer o interior das flautas de junco.<\/p>\n\n\n\n<p>Finalmente, uma noite, ele pediu ao anjo da morte para que apressasse o seu passo. Na manh\u00e3 seguinte, quando os dedos do sol acariciaram seu rosto, ele encontrou em seu tapete uma linda rosa, e Yadir lembrou-se do Dissipador de Todas as Dificuldades e sentiu seu cora\u00e7\u00e3o sangrar novamente.<\/p>\n\n\n\n<p>Curiosamente, apesar de seu comportamento sombrio, os vizinhos e conhecidos de Yadir ainda o consideravam um dos melhores homens sobre a terra. No entanto, somente uns poucos humildemente se aproximavam dele para escutar as belas hist\u00f3rias que ele costumava contar na chaikana. Ele falava ent\u00e3o da suave brisa do anoitecer no deserto e das maravilhas da chuva que d\u00e1 vida. Ele descrevia as dunas do deserto, as palmeiras e o manso fasc\u00ednio dos a\u00e7udes nos o\u00e1sis. Ele contava antigas hist\u00f3rias sobre velhos tecel\u00f5es de tapetes e de jardineiros de rosas brancas.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto falava, tecendo seus padr\u00f5es de palavras, aqueles que encontravam o seu olhar viam lampejos profundos de rosa e ouro que os recordavam do sol se deitando no deserto. Mas a maioria das pessoas temia olh\u00e1-lo nos olhos e procurar essas maravilhas, e eram estes que espalhavam muitas hist\u00f3rias sobre seus estranhos poderes<\/p>\n\n\n\n<p>Quando Yadir morreu, os vizinhos ficaram assombrados quando viram, saindo de uma das janelas de sua casa, um lindo camelo que partiu voando para o infinito.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Era um vez, a menos de mil milhas daqui, um menino que, apesar de sua pouca idade, acumulara uma grande experi\u00eancia no pastoreio de suas ovelhas. Suas pernas eram finas por\u00e9m fortes. Seus p\u00e9s descal\u00e7os eram endurecidos pela constante car\u00edcia das areias do deserto e em seu olhar havia mais luz do que no ouro&hellip;&nbsp;<a href=\"https:\/\/joaodebarro.blog.br\/site\/contos-sufis\/a-mordida-do-camelo\/\" rel=\"bookmark\">Continue a ler &raquo;<span class=\"screen-reader-text\">A Mordida do Camelo<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":740,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"neve_meta_sidebar":"","neve_meta_container":"","neve_meta_enable_content_width":"","neve_meta_content_width":0,"neve_meta_title_alignment":"","neve_meta_author_avatar":"","neve_post_elements_order":"","neve_meta_disable_header":"","neve_meta_disable_footer":"","neve_meta_disable_title":"","footnotes":""},"categories":[8],"tags":[],"class_list":["post-739","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-contos-sufis"],"featured_image_src":"https:\/\/joaodebarro.blog.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/camelo.webp","author_info":{"display_name":"joao-de-barro","author_link":"https:\/\/joaodebarro.blog.br\/site\/author\/jgrolim\/"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaodebarro.blog.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/739","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaodebarro.blog.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaodebarro.blog.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaodebarro.blog.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaodebarro.blog.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=739"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/joaodebarro.blog.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/739\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":741,"href":"https:\/\/joaodebarro.blog.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/739\/revisions\/741"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaodebarro.blog.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/740"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaodebarro.blog.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=739"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaodebarro.blog.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=739"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaodebarro.blog.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=739"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}