{"id":730,"date":"2025-04-29T06:12:39","date_gmt":"2025-04-29T09:12:39","guid":{"rendered":"https:\/\/joaodebarro.blog.br\/site\/?p=730"},"modified":"2025-04-29T06:18:47","modified_gmt":"2025-04-29T09:18:47","slug":"o-homem-que-caminhava-sobre-a-agua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaodebarro.blog.br\/site\/contos-sufis\/o-homem-que-caminhava-sobre-a-agua\/","title":{"rendered":"O Homem que Caminhava sobre a \u00c1gua"},"content":{"rendered":"\n<p>Um dervixe de mentalidade meio simpl\u00f3ria, de uma escola austeramente piedosa, caminhava certo dia pela margem de um rio. Ia absorto, concentrado em problemas escol\u00e1sticos e de natureza moral, pois era esta a forma assumida pelo ensino sufi na comunidade a que ele pertencia.<\/p>\n\n\n\n<p>Equiparava-se ali a religiosidade emocional com a busca da Verdade essencial.<\/p>\n\n\n\n<p>De repente, seus pensamentos foram interrompidos por um forte grito. Algu\u00e9m estava repetindo o apelo dervixe.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Isto carece de sentido &#8211; disse para si mesmo &#8211; pois est\u00e1 emitindo incorretamente as s\u00edlabas. Em vez de pronunciar &#8216;ya hu&#8217;, ele est\u00e1 dizendo &#8216;u ya hu&#8217;.<\/p>\n\n\n\n<p>Pensou de imediato que era seu dever, como estudante mais aplicado, corrigir aquela pessoa desafortunada, que talvez n\u00e3o tivesse tido a oportunidade de ser orientada corretamente, dai que estivesse, quem sabe, fazendo o melhor que podia para interpretar a ideia contida atr\u00e1s dos sons.<\/p>\n\n\n\n<p>Desse modo, alugou um bote e se acercou da ilhota que ficava do outro lado do rio e de onde parecia vir o chamado.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi encontrar, ent\u00e3o, sentado numa cabana de juncos, um homem vestido com um manto dervixe, que movia a cabe\u00e7a e os bra\u00e7os seguindo o ritmo da frase iniciat\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Meu amigo, &#8211; disse o dervixe que viera no bote -, est\u00e1s pronunciando incorretamente a frase. Cabe a mim dizer-lhe isso, j\u00e1 que h\u00e1 m\u00e9rito tanto para aquele que oferece como para o que aceita conselho. Eis como se pronuncia a frase, &#8211; E a disse ent\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Obrigado &#8211; disse humildemente o outro dervixe.<\/p>\n\n\n\n<p>O primeiro dervixe voltou a seu barco, muito satisfeito por ter praticado uma boa a\u00e7\u00e3o. Afinal, j\u00e1 foi dito que um homem capaz de repetir a f\u00f3rmula sagrada corretamente poderia inclusive caminhar sobre as ondas; algo que nunca presenciara, mas que alimentara sempre a esperan\u00e7a &#8211; por alguma raz\u00e3o desconhecida &#8211; de realizar.<\/p>\n\n\n\n<p>Agora nenhum som proveniente da cabana de juncos se fazia ouvir, mas estava certo de que sua li\u00e7\u00e3o fora bem acolhida.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi ent\u00e3o que escutou um vacilante &#8216;u ya&#8217;, come\u00e7ando o segundo dervixe a repetir a frase da mesma forma de antes&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto o primeiro dervixe pensava no que acontecia, refletindo sobre a perversidade dos seres humanos e sua persist\u00eancia no erro, observou de s\u00fabito um estranho espet\u00e1culo. Deixando a ilhota, o outro dervixe se acercava dele caminhando sobre a superf\u00edcie das \u00e1guas&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Surpreso, o primeiro dervixe parou de remar. O outro chegou junto dele e disse:<br>&#8211; Irm\u00e3o, lamento incomod\u00e1-lo, mas tive que vir aqui para perguntar-lhe sobre a maneira usual de pronunciar a repeti\u00e7\u00e3o da f\u00f3rmula como me ensinou, pois me \u00e9 dif\u00edcil record\u00e1-la.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"has-small-font-size\" style=\"padding-right:0;padding-left:0\"><em>Em nosso idioma s\u00f3 podemos reproduzir uma das extens\u00f5es do significado deste conto, pois as vers\u00f5es \u00e1rabes literalmente lan\u00e7am m\u00e3o de palavras de sonoridade semelhante com diferentes significados &#8211; hom\u00f4nimos &#8211; para enfatizar a afirma\u00e7\u00e3o de que esta hist\u00f3ria \u00e9 um instrumento destinado a elevar a consci\u00eancia a n\u00edveis mais profundos, contendo ao mesmo tempo uma moral comum.<br>Al\u00e9m de figurar na literatura popular atual do Oriente, essa hist\u00f3ria \u00e9 encontrada em manuscritos de ensinamento dervixe, alguns antigos.<br>A presente vers\u00e3o \u00e9 da Ordem Asaaseen ( &#8220;essencial&#8221;, &#8220;original&#8221;) do Oriente M\u00e9dio e Pr\u00f3ximo.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right has-small-font-size\">Extra\u00eddo do livro: Hist\u00f3rias dos Dervixes &#8211; Idries Shah &#8211; 1976<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um dervixe de mentalidade meio simpl\u00f3ria, de uma escola austeramente piedosa, caminhava certo dia pela margem de um rio. 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