{"id":669,"date":"2025-02-23T12:47:46","date_gmt":"2025-02-23T15:47:46","guid":{"rendered":"https:\/\/joaodebarro.blog.br\/site\/?p=669"},"modified":"2025-02-23T12:47:47","modified_gmt":"2025-02-23T15:47:47","slug":"o-homem-cuja-vida-era-inexplicavel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaodebarro.blog.br\/site\/contos-sufis\/o-homem-cuja-vida-era-inexplicavel\/","title":{"rendered":"O Homem Cuja Vida Era Inexplic\u00e1vel"},"content":{"rendered":"\n<p>Havia uma vez um homem chamado Mojud. Vivia numa cidade onde obtivera um emprego como pequeno funcion\u00e1rio, e tudo parecia indicar que terminaria sua vida como Inspetor de Pesos e Medidas.<\/p>\n\n\n\n<p>Certo dia quando caminhava ao longo dos jardins de um antigo edif\u00edcio pr\u00f3ximo \u00e0 sua casa, Khidr, o misterioso Guia dos Sufis, surgiu diante dele, vestido de um verde luminoso. Ent\u00e3o Khidr disse:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Homem de brilhantes perspectivas! Deixe seu trabalho e se encontre comigo na margem do rio dentro de tr\u00eas dias. &#8211; Dito isso, desapareceu.<\/p>\n\n\n\n<p>Excitado, Mojud procurou seu chefe e lhe disse que ia partir. E todos na cidade logo souberam do fato e comentaram:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Pobre Mojud! Deve ter ficado louco.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas como havia muitos candidatos ao posto vago, logo se esqueceram de Mojud. No dia marcado, Mojud encontrou Khidr, que lhe disse:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Rasgue suas roupas e se lance no rio, talvez algu\u00e9m o salve.<\/p>\n\n\n\n<p>Mojud obedeceu, embora se perguntasse se n\u00e3o estaria louco .<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 que sabia nadar, n\u00e3o se afogou, mas ficou boiando \u00e0 deriva um longo trecho da corrente antes que um pescador o recolhesse em seu bote, dizendo:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Homem insensato! A corrente aqui \u00e9 forte. Que est\u00e1 tentando fazer?<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Na verdade eu n\u00e3o sei &#8211; respondeu Mojud.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Vejo que perdeu a raz\u00e3o, mas o levarei \u00e0 minha cabana de juncos junto ao rio e a\u00ed veremos o que se pode fazer por voc\u00ea &#8211; disse o pescador.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando o pescador descobriu que Mojud era bem instru\u00eddo, passou a aprender com ele a ler e escrever. Em troca, Mojud recebeu alojamento e comida e ajudou o pescador em seu trabalho di\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Transcorridos uns poucos meses, Khidr apareceu novamente, desta vez ao p\u00e9 do leito de Mojud, e disse:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Levante-se e deixe a cabana deste pescador. Ser\u00e1 provido do necess\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Vestido como um pescador, Mojud deixou imediatamente a humilde cabana e perambulou sem rumo certo at\u00e9 alcan\u00e7ar uma estrada.<br>Ao romper da aurora, viu um granjeiro montado num burro, a caminho do mercado.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Procura trabalho? &#8211; perguntou o agricultor. &#8211; Estou precisando de um homem que me ajude a trazer algumas compras da cidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Mojud o acompanhou ent\u00e3o. Trabalhou para o granjeiro durante quase dois anos, ao fim dos quais aprendeu muita coisa, mas somente sobre agricultura.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma tarde quando estava ensacando l\u00e3, Khidr fez nova apari\u00e7\u00e3o e lhe disse:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Deixe esse trabalho, dirija-se \u00e0 cidade de Mosul, e empregue suas economias para se converter em mercador de peles.<\/p>\n\n\n\n<p>Mojud obedeceu.<\/p>\n\n\n\n<p>Em Mosul tornou-se logo conhecido como um negociante de peles, sem voltar a ver Khidr durante os tr\u00eas anos em que exerceu seu novo of\u00edcio. Tinha reunido uma consider\u00e1vel quantia e estava pensando em comprar uma casa, quando Khidr lhe apareceu e disse:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; D\u00ea-me seu dinheiro, afaste-se desta cidade rumo \u00e0 distante Samarkand e l\u00e1 passe a trabalhar para um merceeiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi o que Mojud fez. E logo come\u00e7ou a demonstrar ind\u00edcios indubit\u00e1veis de ilumina\u00e7\u00e3o. Curava os enfermos, servia a seu pr\u00f3ximo no armaz\u00e9m e nas horas de lazer, e seu conhecimento dos mist\u00e9rios da vida tomou-se cada vez mais profundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Sacerdotes, fil\u00f3sofos e outros o visitavam e indagavam:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Com quem voc\u00ea estudou?<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; \u00c9 dif\u00edcil dizer &#8211; respondia Mojud.<\/p>\n\n\n\n<p>Seus disc\u00edpulos perguntavam:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Como iniciou sua carreira?<\/p>\n\n\n\n<p>E ele retrucava:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Como um pequeno funcion\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; E deixou o emprego para dedicar-se \u00e0 automortifica\u00e7\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; N\u00e3o, simplesmente abandonei a carreira.<\/p>\n\n\n\n<p>Eles n\u00e3o o compreendiam.<\/p>\n\n\n\n<p>Pessoas dele se acercavam, desejosas de escrever a hist\u00f3ria de sua vida.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Que tem feito em sua vida? &#8211; indagavam.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Em me atirei a um rio, fui salvo por um pescador com quem morei e trabalhei. Certa noite, abandonei a sua cabana de juncos. Depois, me converti num agricultor. Quando estava ensacando l\u00e3, larguei meu trabalho e me dirigi para Mosul, onde me tornei mercador de peles. Economizei algum dinheiro ali, mas o doei. Ent\u00e3o fui para Samarkand, passando a trabalhar para um merceeiro. E aqui estou agora.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Mas esse comportamento inexplic\u00e1vel n\u00e3o esclarece de modo algum seus estranhos dons e exemplos edificantes &#8211; observaram os bi\u00f3grafos.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; Assim \u00e9 &#8211; disse Mojud.<\/p>\n\n\n\n<p>E foi assim que os bi\u00f3grafos teceram em torno da figura de Mojud uma hist\u00f3ria maravilhosa e excitante. Porque todos os santos afinal devem ter sua hist\u00f3ria, e esta deve estar de acordo com a curiosidade do ouvinte, n\u00e3o com as realidades da vida.<\/p>\n\n\n\n<p>E a ningu\u00e9m \u00e9 permitido falar de Khidr diretamente. \u00c9 por isso que esta hist\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 ver\u00eddica. \u00c9 uma representa\u00e7\u00e3o de uma vida. A vida real de um dos maiores sufis.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p><em>O Homem Cuja Vida Era Inexplic\u00e1vel <\/em><br><em>O Xeque Ali Farmadhi (falecido em 1078) reputava importante este conto para exemplificar a cren\u00e7a sufi de que o &#8216;mundo invis\u00edvel&#8217; est\u00e1 todo o tempo, em v\u00e1rios lugares, interpenetrando a realidade comum. Coisas &#8211; diz ele &#8211; que encaramos como inexplic\u00e1veis s\u00e3o, de fato, devidas a tal interven\u00e7\u00e3o. E mais, as pessoas n\u00e3o reconhecem a participa\u00e7\u00e3o desse &#8216;mundo&#8217; no seu, por acreditarem conhecer a causa real dos acontecimentos. Mas n\u00e3o a conhecem. Somente quando advertem a possibilidade de outra dimens\u00e3o que atua \u00e0s vezes sobre as experi\u00eancias comuns, \u00e9 que tal dimens\u00e3o pode tornar-se acess\u00edvel a elas. O Xeque \u00e9 o d\u00e9cimo Xeque e Mestre instrutor da Ordem dos Khwajagan (&#8216;mestres&#8217;), conhecida depois como o Caminho Naqshbandi. A presente vers\u00e3o \u00e9 do manuscrito do s\u00e9culo XVII de Lala Anwar,<br>Hikayat-i-Abdalan (&#8216;Hist\u00f3rias dos Transformados&#8217;).<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right has-small-font-size\">Extra\u00eddo de &#8216;Hist\u00f3rias dos Dervixes&#8217;<br>Idries Shah<br>Nova Fronteira 1976<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Havia uma vez um homem chamado Mojud. 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