{"id":665,"date":"2025-02-22T07:42:00","date_gmt":"2025-02-22T10:42:00","guid":{"rendered":"https:\/\/joaodebarro.blog.br\/site\/?p=665"},"modified":"2025-02-22T07:43:01","modified_gmt":"2025-02-22T10:43:01","slug":"as-portas-do-paraiso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaodebarro.blog.br\/site\/contos-sufis\/as-portas-do-paraiso\/","title":{"rendered":"As Portas do Para\u00edso"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Havia uma vez um bom homem que levou toda a sua vida cultivando as qualidades indicadas aos que deveriam alcan\u00e7ar o Para\u00edso. Ajudou bastante aos pobres, amou e serviu a seus semelhantes. Ciente da necessidade de ter paci\u00eancia, suportou grandes e inesperadas priva\u00e7\u00f5es, muitas vezes em benef\u00edcio do pr\u00f3ximo. Fez viagens em busca de conhecimentos. Sua humildade e seu comportamento modelar eram t\u00e3o expressivos que sua reputa\u00e7\u00e3o de homem s\u00e1bio e bom cidad\u00e3o ficou conhecida desde o Oriente ao Ocidente, e desde o Norte ao Sul.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Certamente que ele punha em pr\u00e1tica todas aquelas qualidades, cada vez que delas se lembrava. Mas tinha um defeito, a neglig\u00eancia. Tal propens\u00e3o n\u00e3o era acentuada nele, e achava que, comparada com as outras boas a\u00e7\u00f5es que praticava, podia ser encarada como uma pequena falha. Houve alguns pobres aos quais ele n\u00e3o ajudou, pois de quando em quando tornava-se insens\u00edvel as suas necessidades. Algumas vezes, tamb\u00e9m, esquecia-se de estimar e atender aos outros, quando entravam em jogo o que encarava como necessidades pessoais, ou pelo menos desejos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O sono lhe apetecia muito, e por vezes, quando se achava adormecido, perdia de modo irrepar\u00e1vel oportunidades de alcan\u00e7ar conhecimentos, ou de entend\u00ea-los devidamente, ou ainda de exercitar a verdadeira humildade, e de aumentar o n\u00famero de boas a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E assim como as boas qualidades tinham deixado impressa a sua marca em seu ser essencial, assim tamb\u00e9m aconteceu com o sinal deixado por sua neglig\u00eancia. E foi ent\u00e3o que ele veio a morrer. Encontrando-se mais al\u00e9m desta vida e dirigindo-se para os portais do Jardim Amuralhado, o nosso homem parou um momento para um exame de consci\u00eancia. E sentiu que sua oportunidade era \u00fanica de penetrar nos umbrais do Para\u00edso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Viu que as portas estavam fechadas e a\u00ed soou uma voz que lhe disse:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8211; Permane\u00e7a atento, pois as portas se abrir\u00e3o somente uma vez em cada cem anos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O homem se acomodou para esperar, ansioso com a perspectiva de ser aceito. Mas, perdidas agora as oportunidades de exercitar virtudes em benef\u00edcio da humanidade, ele se deu conta de que sua capacidade de aten\u00e7\u00e3o n\u00e3o lhe era suficiente.<br>Ap\u00f3s ter permanecido atento durante um intervalos de tempo que lhe pareceu um s\u00e9culo, come\u00e7ou a cochilar. E no instante infinitesimal em que seus olhos se fecharam, as portas do Para\u00edso foram abertas de par em par. E antes que os olhos do homem se abrissem de novo, as portas se fecharam. Com um estrondo bastante forte para ressuscitar os mortos.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote has-background is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\" style=\"background-color:#f2f2f2;padding-right:var(--wp--preset--spacing--50);padding-left:var(--wp--preset--spacing--50)\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Este \u00e9 um ensinamento predileto dos dervixes, algumas vezes denominado &#8220;A Par\u00e1bola da Neglig\u00eancia&#8221;. Apesar de muito conhecido como conto folcl\u00f3rico, suas origens se perderam no tempo. Alguns o atribuem a Hadrat Ali, o Quarto Califa. Outros dizem ser t\u00e3o importante que poderia ter sido transmitido, secretamente, pelo pr\u00f3prio profeta. Certamente que tal relato n\u00e3o se encontra em nenhuma das tradi\u00e7\u00f5es confirmadas do profeta.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>A forma liter\u00e1ria que \u00e9 dada ao conto aqui apresentado deriva das obras de um dervixe desconhecido do s\u00e9culo XVII, Amil-Baba, cujos manuscritos frisam que: &#8220;o verdadeiro autor \u00e9 aquele cuja obra \u00e9 an\u00f4nima, pois deste modo ningu\u00e9m se interp\u00f5e entre o aluno e o que deve ser estudado&#8221;.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right has-small-font-size wp-block-paragraph\">Idries Shah, A hist\u00f3ria dos Dervishes &#8211; Nova Fronteira &#8211; 1976<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Havia uma vez um bom homem que levou toda a sua vida cultivando as qualidades indicadas aos que deveriam alcan\u00e7ar o Para\u00edso. Ajudou bastante aos pobres, amou e serviu a seus semelhantes. 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