{"id":652,"date":"2025-02-03T07:16:34","date_gmt":"2025-02-03T10:16:34","guid":{"rendered":"https:\/\/joaodebarro.blog.br\/site\/?p=652"},"modified":"2025-02-03T07:16:35","modified_gmt":"2025-02-03T10:16:35","slug":"o-ermitao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaodebarro.blog.br\/site\/contos-sufis\/o-ermitao\/","title":{"rendered":"O ermit\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Durante o reinado do rei Mabdar viveu na Babil\u00f4nia um jovem chamado Zadig. Era formoso, rico e naturalmente de bom cora\u00e7\u00e3o. No momento em que esta hist\u00f3ria come\u00e7a ele estava viajando a p\u00e9 para ver o mundo e aprender filosofia e sabedoria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas at\u00e9 esse momento tinha encontrado tanta mis\u00e9ria e suportado tantos e terr\u00edveis desastres que estava tentado a rebelar-se contra a vontade do c\u00e9u e acreditar que a Provid\u00eancia, que rege o mundo, desdenhava o Bem e permitia que o Mal prosperasse. Neste triste estado de esp\u00edrito estava ele caminhando um dia \u00e0s margens do Eufrates. Por casualidade encontrou um vener\u00e1vel ermit\u00e3o cuja barba, branca como a neve, descia at\u00e9 a cintura. Em sua m\u00e3o o anci\u00e3o levava um rolo de pergaminho que lia com aten\u00e7\u00e3o. Zadig parou e fez-lhe uma rever\u00eancia. O ermit\u00e3o devolveu-lhe a sauda\u00e7\u00e3o com um ar t\u00e3o bondoso e t\u00e3o nobre que Zadig sentiu curiosidade de falar com ele. Perguntou-lhe ent\u00e3o o que ele estava lendo:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8211; \u00c9 o Livro do Destino &#8211; disse o ermit\u00e3o. &#8211; Voc\u00ea gostaria de ler este livro?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entregou o livro a Zadig, mas este, apesar de conhecer uma dezena de l\u00ednguas, n\u00e3o pode entender uma s\u00f3 palavra do livro.<br>Sua curiosidade foi aumentando.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8211; Voc\u00ea parece ter problemas&#8230; &#8211; disse o bondoso ermit\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8211; Sim, infelizmente tenho &#8211; disse Zadig. &#8211; E tenho raz\u00f5es para estar assim.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8211; Se me permite &#8211; disse o anci\u00e3o, &#8211; eu o acompanharei. Quem sabe poderei ser-lhe \u00fatil. `As vezes sou capaz de consolar os aflitos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Zadig sentiu um profundo respeito pela apar\u00eancia, a barba branca e o pergaminho misterioso do velho ermit\u00e3o, e percebeu que a conversa dele era a de uma mente superior. O velho falou do destino, da justi\u00e7a, da moral, do principal bem na vida, da debilidade humana, da virtude e do v\u00edcio, com tal poder de eloqu\u00eancia que Zadig se sentiu atra\u00eddo por uma esp\u00e9cie de encanto, e suplicou ao eremita que n\u00e3o o deixasse at\u00e9 que regressassem \u00e0 Babil\u00f4nia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8211; Pe\u00e7o-lhe o mesmo favor &#8211; disse o ermit\u00e3o. &#8211; Prometa-me que, haja o que houver, voc\u00ea permanecer\u00e1 em minha companhia por alguns dias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Zadig prometeu, e juntos se puseram em marcha.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Naquela noite os viajantes chegaram a uma grande mans\u00e3o. O eremita pediu comida e alojamento para ele e seu companheiro. O porteiro, que poderia ser confundido com um pr\u00edncipe, os introduziu com um desdenhoso ar de boas-vindas. O chefe dos serventes lhe mostrou os magn\u00edficos aposentos, e ent\u00e3o lhes foi permitido sentar-se em um canto da mesa, na qual estava o senhor da mans\u00e3o, que nem se deu ao trabalho de olh\u00e1-los. Mesmo assim, iguarias em abund\u00e2ncia lhes foram servidas, e depois de cear lavaram as m\u00e3os em uma bacia de ouro incrustada com esmeraldas e rubis. Foram ent\u00e3o levados para passar a noite em um formoso aposento. Na manh\u00e3 seguinte, antes de deixarem o castelo, um servente trouxe uma pe\u00e7a de ouro para cada um.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8211; O senhor da casa &#8211; disse Zadig quando estavam caminhando &#8211; parece ser um homem generoso, ainda que um pouco arrogante, e pratica uma nobre hospitalidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Enquanto falava com ele se deu conta de que uma esp\u00e9cie de bolsa grande que o eremita levava parecia agora abarrotada. Dentro dela estava a bacia de ouro incrustada de pedras preciosas que o velho havia furtado. Zadig ficou pasmo, mas n\u00e3o disse nada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao meio-dia o eremita parou em frente a uma pequena casa onde vivia um rico avarento e, mais uma vez pediu hospedagem. Um velho criado, usando um pu\u00eddo casaco, os recebeu muito grosseiramente, acomodou-os no est\u00e1bulo e p\u00f4s diante deles umas poucas azeitonas meio estragadas, uns peda\u00e7os de p\u00e3o dormido e cerveja muito amarga.<br>O ermit\u00e3o comeu e bebeu com o mesmo prazer que tivera na noite anterior. Quando terminaram o ermit\u00e3o se dirigiu ao criado, que n\u00e3o havia tirado os olhos deles para assegurar-se de que nada roubariam, deu-lhe as duas pe\u00e7as de ouro que haviam recebido naquela manh\u00e3 e agradeceu a sua aten\u00e7\u00e3o, acrescentando:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8211; Tenha a bondade de permitir que eu veja seu amo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O at\u00f4nito servo os conduziu para dentro da casa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8211; Poderos\u00edssimo senhor &#8211; disse o ermit\u00e3o, &#8211; eu gostaria de apresentar meus humildes agradecimentos pela nobre maneira com que nos recebeu. Eu suplico que aceite esta bacia de ouro como demonstra\u00e7\u00e3o de minha gratid\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O miser\u00e1vel avarento quase caiu da cadeira, de t\u00e3o assombrado que ficou. O ermit\u00e3o, sem esperar que ele se recobrasse, retirou-se rapidamente com seu companheiro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8211; Santo Pai &#8211; disse Zadig, &#8211; o que significa tudo isso? Para mim voc\u00ea n\u00e3o se parece em nada aos outros homens. Voc\u00ea rouba uma bacia de ouro com joias de um senhor que nos recebe magnificamente e a d\u00e1 a um tacanho que o trata indignamente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8211; Meu filho &#8211; replicou o ermit\u00e3o, &#8211; esse poderoso senhor que s\u00f3 recebe os viajantes por vaidade e para ostentar suas riquezas de agora em diante se far\u00e1 mais s\u00e1bio, e, por outro lado, o miser\u00e1vel ser\u00e1 ensinado a praticar a hospitalidade. N\u00e3o se espante com nada, e siga-me.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Zadig n\u00e3o sabia se estava tratando com o mais s\u00e1bio ou com o mais tolo dos homens. Mas o ermit\u00e3o falou com tal convic\u00e7\u00e3o que Zadig, preso a sua promessa, n\u00e3o teve outra escolha sen\u00e3o segui-lo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nessa noite chegaram a uma casa agrad\u00e1vel, de aspecto simples, que n\u00e3o mostrava sinais de fartura nem de avareza. O dono era um fil\u00f3sofo que havia abandonado o mundo e estudava, pacificamente, as leis da virtude e da sabedoria. Era um homem feliz e contente. Ele havia criado esse calmo ref\u00fagio para seu prazer e nele recebeu os estrangeiros com uma generosidade que n\u00e3o mostrava sinais de ostenta\u00e7\u00e3o. Ele mesmo os conduziu a um quarto confort\u00e1vel, onde os fez descansar alguns instantes, e ent\u00e3o veio busc\u00e1-los para servir-lhes uma delicada ceia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nas conversas que mantiveram entre si, concordaram que os assuntos deste mundo nem sempre eram regulados pelas opini\u00f5es dos homens mais s\u00e1bios. O ermit\u00e3o, por sua parte, sustentava que os caminhos da Provid\u00eancia estavam envoltos em mist\u00e9rio e que os homens faziam mal em emitir julgamento sobre um universo do qual s\u00f3 conheciam uma parte muito pequena. Zadig se perguntava como uma pessoa que cometia atos t\u00e3o loucos podia pensar t\u00e3o corretamente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Finalmente, depois de uma conversa t\u00e3o agrad\u00e1vel quanto instrutiva, o anfitri\u00e3o conduziu os viajantes a seus quartos e agradeceu ao c\u00e9u por enviar dois visitantes t\u00e3o s\u00e1bios e virtuosos.<br>Ofereceu-lhes algum dinheiro, mas o fez com tanta franqueza que eles n\u00e3o puderam se sentir ofendidos. O velho recusou e se despediu, pois desejava partir para a Babil\u00f4nia ao nascer do dia. Separaram-se em tom cordial, e Zadig estava cheio de agrad\u00e1veis sentimentos por um homem t\u00e3o amistoso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Enquanto estavam em seu quarto, Zadig e o ermit\u00e3o passaram algum tempo elogiando o anfitri\u00e3o. Ao amanhecer o anci\u00e3o despertou seu companheiro, dizendo:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8211; Devemos ir. Mas enquanto todos ainda est\u00e3o dormindo desejo deixar a este digno homem um sinal de minha estima.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com estas palavras, pegou uma tocha e deitou fogo \u00e0 casa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Zadig come\u00e7ou a gritar horrorizado e teria impedido esse terr\u00edvel ato, mas o ermit\u00e3o, com uma for\u00e7a superior, o deteve. A casa se tornou uma fogueira, e o velho, que agora estava bem longe com seu companheiro, olhou calmamente para a pilha fumegante.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8211; O c\u00e9u seja louvado! &#8211; gritou. &#8211; A casa de nosso am\u00e1vel anfitri\u00e3o est\u00e1 destru\u00edda de ponta a ponta!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao ouvir estas palavras, Zadig n\u00e3o sabia se chorava ou se ria; se chamava o vener\u00e1vel de velhaco, se o golpeava ou se corria para longe dali, mas ele n\u00e3o fez nenhuma destas coisas. Ainda subjugado pela apar\u00eancia superior do ermit\u00e3o, seguiu-o contra sua pr\u00f3pria vontade at\u00e9 a hospedagem seguinte. Desta vez chegaram \u00e0 resid\u00eancia de uma boa e caridosa vi\u00fava que tinha um sobrinho de 14 anos, sua \u00fanica esperan\u00e7a e alegria. Ela fez tudo o que pode pelos viajantes.<br>Na manh\u00e3 seguinte pediu a seu sobrinho que os guiasse na travessia de uma certa ponte em ru\u00ednas, perigosa de se cruzar. O jovem os conduziu, ansioso por agrad\u00e1-los.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8211; Venha &#8211; disse o eremita, quando eles estavam no meio da ponte,<br>&#8211; devo mostrar minha gratid\u00e3o para com sua tia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Enquanto falava, ele pegou o jovem pelos cabelos e o atirou no rio.<br>O jovem caiu, reapareceu por um instante na superf\u00edcie da \u00e1gua e logo foi tragado pele corrente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8211; Oh, monstro! &#8211; exclamou Zadig. &#8211; Voc\u00ea \u00e9 o mais detest\u00e1vel dos homens!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8211; Voc\u00ea me prometeu ter mais paci\u00eancia &#8211; interrompeu o velho. &#8211; Escute!<br>Embaixo das ru\u00ednas daquela casa que a Provid\u00eancia achou conveniente por em chamas, o dono descobrir\u00e1 um enorme tesouro; enquanto o jovem, cuja exist\u00eancia a Provid\u00eancia cortou, teria matado a tia em um ano e a voc\u00ea em dois anos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8211; Quem lhe disse isto, b\u00e1rbaro? &#8211; gritou Zadig. &#8211; Ainda que voc\u00ea tenha lido isso no Livro do Destino, quem lhe deu poder para afogar um jovem que nunca lhe fez nada?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Enquanto falava, Zadig viu que o anci\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o tinha mais barba e que seu rosto tinha se tornado jovem e belo. Seu traje de eremita havia desaparecido, quatro asas brancas cobriam a sua majestosa forma e brilhavam com ofuscante esplendor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8211; Anjo do C\u00e9u! &#8211; gritou Zadig. &#8211; Voc\u00ea ent\u00e3o desceu do c\u00e9u para ensinar a um mortal extraviado a submeter-se \u00e0s leis eternas?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8211; Os homens &#8211; replicou o anjo Jezrael &#8211; julgam todas as coisas sem conhecimento, e voc\u00ea \u00e9, de todos os homens, o mais merecedor de ser esclarecido. O mundo imagina que o jovem que acaba de perecer caiu por acidente na \u00e1gua e que a casa do fil\u00f3sofo se incendiou por acaso.<br>Mas a causalidade n\u00e3o existe: tudo \u00e9 prova, castigo ou profecia.<br>Fr\u00e1gil mortal! Pare de questionar e de se rebelar contra o que voc\u00ea deveria adorar!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Depois de dizer estas palavras, o anjo al\u00e7ou voo at\u00e9 o c\u00e9u e Zadig se prostrou ajoelhado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right has-small-font-size wp-block-paragraph\">Extra\u00eddo de<br>&#8216;Hist\u00f3rias da Tradi\u00e7\u00e3o Sufi&#8217;<br>Edi\u00e7\u00f5es Dervish 1993<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Durante o reinado do rei Mabdar viveu na Babil\u00f4nia um jovem chamado Zadig. Era formoso, rico e naturalmente de bom cora\u00e7\u00e3o. No momento em que esta hist\u00f3ria come\u00e7a ele estava viajando a p\u00e9 para ver o mundo e aprender filosofia e sabedoria. 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