{"id":630,"date":"2024-12-17T14:00:58","date_gmt":"2024-12-17T17:00:58","guid":{"rendered":"https:\/\/joaodebarro.blog.br\/site\/?p=630"},"modified":"2024-12-17T14:01:00","modified_gmt":"2024-12-17T17:01:00","slug":"a-lenda-das-areias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaodebarro.blog.br\/site\/contos-sufis\/a-lenda-das-areias\/","title":{"rendered":"A lenda das areias"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vindo desde as suas origens em distantes montanhas, ap\u00f3s passar por in\u00fameros acidentes de terreno nas regi\u00f5es campestres, um rio finalmente alcan\u00e7ou as areias do deserto. E do mesmo modo como vencera as outras barreiras, o rio tentou atravessar esta de agora, mas se deu conta de que suas \u00e1guas mal tocavam a areia nela desapareciam.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Estava convicto, no entanto, de que fazia parte de seu destino cruzar aquele deserto, embora n\u00e3o visse como faz\u00ea-lo. Ent\u00e3o uma voz misteriosa, sa\u00edda do pr\u00f3prio deserto arenoso, sussurrou:<br>&#8211; O vento cruza o deserto, o mesmo pode fazer o rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O rio objetou estar se arremessando contra as areias, sendo assim absorvido, enquanto o vento podia voar, conseguindo dessa maneira atravessar o deserto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8211; Arrojando-se com viol\u00eancia como vem fazendo n\u00e3o conseguir\u00e1 cruz\u00e1-lo. Assim desaparecer\u00e1 ou se transformar\u00e1 num p\u00e2ntano. Deve permitir que o vento o conduza a seu destino.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8211; Mas como isso pode acontecer?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8211; Consentindo em ser absorvido pelo vento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tal sugest\u00e3o n\u00e3o era aceit\u00e1vel para o rio. Afinal de contas, ele nunca fora absorvido at\u00e9 ent\u00e3o. N\u00e3o desejava perder a sua individualidade. Uma vez a tendo perdido, como se poder\u00e1 saber se a recuperaria mais tarde?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8211; O vento desempenha essa fun\u00e7\u00e3o &#8211; disseram as areias. &#8211; eleva a \u00e1gua, a conduz sobre o deserto e depois a deixa cair. Caindo em forma de chuva, a \u00e1gua novamente se converte num rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8211; Como posso saber que isto \u00e9 verdade?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8211; Pois assim \u00e9, e se n\u00e3o acredita, n\u00e3o se tornar\u00e1 outra coisa sen\u00e3o um p\u00e2ntano, e ainda isto levaria muitos e muitos anos; e um p\u00e2ntano n\u00e3o \u00e9 certamente a mesma coisa que um rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8211; Mas n\u00e3o posso continuar sendo o mesmo rio que sou agora?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8211; Voc\u00ea n\u00e3o pode, em caso algum, permanecer assim &#8211; retrucou a voz. &#8211; Sua parte essencial \u00e9 transportada e forma um rio novamente. Voc\u00ea \u00e9 chamado assim ainda hoje por n\u00e3o saber qual a sua parte essencial.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao ouvir tais palavras, certos ecos come\u00e7aram a ressoar nos pensamentos mais profundos do rio. Recordou vagamente um est\u00e1gio em que ele, ou uma parte dele, n\u00e3o sabia qual, fora transportada nos bra\u00e7os do vento. Tamb\u00e9m se lembrou, ou lhe pareceu assim, de que era isso o que devia fazer, conquanto n\u00e3o fosse a coisa mais natural.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E o rio elevou ent\u00e3o seus vapores nos acolhedores bra\u00e7os do vento, que suave e facilmente o conduziu para o alto, e para bem longe, deixando-o cair suavemente t\u00e3o logo tinham alcan\u00e7ado o topo de uma montanha, milhas e milhas mais distante. E porque tivera suas d\u00favidas, o rio pode recordar e gravar com mais firmeza em sua mente os detalhes daquela sua experi\u00eancia. E ponderou: &#8211; Sim, agora conhe\u00e7o a minha verdadeira identidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O rio estava fazendo seu aprendizado, mas as areias sussurraram:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8211; N\u00f3s temos o conhecimento porque vemos essa opera\u00e7\u00e3o ocorrer dia ap\u00f3s dia, e porque n\u00f3s, as areias, nos estendemos por todo o caminho que vai desde as margens do rio at\u00e9 a montanha.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E \u00e9 por isso que se diz que o caminho pelo qual o Rio da Vida tem de seguir em sua travessia est\u00e1 escrito nas Areias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right has-small-font-size wp-block-paragraph\">Do livro &#8220;O Buscador da Verdade&#8221; de Idries Shah<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vindo desde as suas origens em distantes montanhas, ap\u00f3s passar por in\u00fameros acidentes de terreno nas regi\u00f5es campestres, um rio finalmente alcan\u00e7ou as areias do deserto. 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