{"id":585,"date":"2024-12-06T13:36:48","date_gmt":"2024-12-06T16:36:48","guid":{"rendered":"http:\/\/joaodebarro.blog.br\/site\/?p=585"},"modified":"2024-12-06T13:39:50","modified_gmt":"2024-12-06T16:39:50","slug":"a-estoria-de-yunnus-emre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaodebarro.blog.br\/site\/contos-sufis\/a-estoria-de-yunnus-emre\/","title":{"rendered":"A est\u00f3ria de Yunnus Emr\u00e9"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Yunus Emr\u00e9, em tempos muito antigos, inventou contos mais dur\u00e1veis que a mem\u00f3ria de sua pr\u00f3pria vida. Foi tamb\u00e9m um incans\u00e1vel buscador da verdade. Aos vinte anos aproximadamente, ou talvez mais jovem ainda, veio-lhe ao cora\u00e7\u00e3o uma avidez pelo conhecimento que o levou pelos caminhos do mundo. Ele partiu na esperan\u00e7a que essa sede de saber o conduzisse a um mestre que o iluminasse. Esse mestre foi-lhe dado encontrar depois de dez anos de err\u00e2ncia miser\u00e1vel, no grande vento de uma colina, em plena estepe da Anat\u00f3lia. Chamava-se Taptuk e era cego.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Taptuk tamb\u00e9m havia viajado muito, mas por caminhos diferentes dos de Yunus. Adolescente ainda, raspou sua cabe\u00e7a e sobrancelhas e vestindo um gorro de feltro vermelho foi combater invasores mong\u00f3is. Atravessou tantas derrotas quantas ef\u00eameras vit\u00f3rias. Cavalgou com o sabre entre os dentes, perseguindo homens t\u00e3o loucos quanto ele.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Odiou, pilhou, matou, cem vezes perdeu e encontrou sua alma no furor dos combates, at\u00e9 que finalmente o silencio se abateu sobre sua cabe\u00e7a. Numa noite de derrota, ele foi deixado como morto num campo de batalha, \u00e0 beira de um riacho. L\u00e1, uma mulher, a primeira de sua exist\u00eancia com exce\u00e7\u00e3o de algumas prostitutas de tavernas, finalmente debru\u00e7ou-se sobre ele. Ela o recolheu, cuidou dele at\u00e9 cur\u00e1-lo. S\u00f3 n\u00e3o pode devolver-lhe a vis\u00e3o que lhe tinha sido tomada por um sabre inimigo. Ela ent\u00e3o lhe ofereceu sua vida, sua m\u00e3o para conduzi-lo. Desse dia em diante, guiado por sua esposa, Taptuk n\u00e3o sonhava outra coisa a n\u00e3o ser encontrar ele mesmo um caminho at\u00e9 a fonte silenciosa de onde se eleva a luz que torna todas as coisas simples.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Uma noite, nesse deserto seco onde ningu\u00e9m se aventurava, com exce\u00e7\u00e3o de alguns pastores, ele alcan\u00e7ou a fonte. L\u00e1, construiu sua casa. Outros buscadores juntaram-se a ele, de tempos em tempos, levados por n\u00e3o se sabe que vento da alma. Eles reconheceram nesse homem imponente e de poucas palavras o mestre que eles esperavam. Constru\u00edram suas cabanas perto da sua e em volta levantaram uma pali\u00e7ada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Quando Yunus Emr\u00e9 chegou a esse lugar, o monast\u00e9rio de Taptuk, o cego, n\u00e3o era mais do que isso: algumas choupanas baixas rodeadas por um muro de pedras secas na estepe infinita. Taptuk, assim que apalpou o rosto e os ombros deste andarilho faminto de saber, prometeu-lhe a verdade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &#8211; Ela chegar\u00e1 aos poucos, disse-lhe. Por enquanto seu trabalho ser\u00e1 varrer sete vezes por dia o p\u00e1tio do monast\u00e9rio. Yunus obedeceu de cora\u00e7\u00e3o. No instante mesmo em que se viu diante desse anci\u00e3o de cabe\u00e7a raspada, uma confian\u00e7a inquebrant\u00e1vel apoderou-se dele. Sete vezes por dia ele varria o p\u00e1tio com entusiasmo, saudando alegremente o mestre e seus disc\u00edpulos, quando eles se reuniam na casa da esposa onde Taptuk, o cego, ensinava todas as manh\u00e3s. Mas ningu\u00e9m respondia \u00e0s suas sauda\u00e7\u00f5es. &#8220;Est\u00e1 bem que os disc\u00edpulos me ignorem, dizia-se, mas aquele que&nbsp; t\u00e3o bem me acolheu em sua casa, por que n\u00e3o me dirige a palavra?&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Assim se passou um ano, depois dois e tr\u00eas anos, sem que ningu\u00e9m falasse com ele. Ent\u00e3o, seu cora\u00e7\u00e3o tornou-se pesado. &#8220;Sem duvida este silencio significa alguma coisa, pensou, seguramente meu mestre quer ensinar algo para minha alma, pois \u00e9 \u00e0 alma que se dirige a palavra sem voz.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &#8220;Refletiu sobre sua solid\u00e3o, enxotando sete vezes por dia o p\u00f3 que o vento trazia sem cessar para o p\u00e1tio do monast\u00e9rio. Enfim, numa manh\u00e3 de primavera, ao sair de sua cabana, a vassoura nos ombros, uma luz lhe veio. &#8220;Descobri! Taptuk quer ensinar-me a paci\u00eancia&#8221;, se disse ele. Seu cora\u00e7\u00e3o encheu-se de j\u00fabilo e ele voltou a varrer o p\u00e1tio com um ardor renovado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Cinco anos se passaram. Dois outros se escoaram ainda, depois tr\u00eas, depois cinco novos anos, sem que sua sorte mudasse. Ent\u00e3o Yunus desesperou-se. &#8220;Que fiz eu para merecer t\u00e3o longa indiferen\u00e7a?&#8221;se disse ele. Talvez meu mestre tenha me esquecido. Ou talvez n\u00e3o seja eu para ele sen\u00e3o um idiota recolhido por piedade, bom apenas para varrer o p\u00e1tio. Esfor\u00e7ou-se, no entanto, para refletir desapaixonadamente. Numa noite de tempestade, veio-lhe ao esp\u00edrito que Taptuk quisesse lhe ensinar a humildade. Em meio \u00e0 escurid\u00e3o atormentada em que se encontrava, ele sorriu. &#8220;\u00c9 isso. Ele quer me ensinar a humildade&#8221;. Na manh\u00e3 seguinte, quando iniciou o trabalho, seus gestos estavam mais comedidos e, porque seu cora\u00e7\u00e3o estava em paz, ele se p\u00f4s, enquanto varria o p\u00e1tio, a cantarolar. Pouca coisa. Palavras que lhe subiam aos l\u00e1bios e que ele deixava ir ao vento pela \u00fanica satisfa\u00e7\u00e3o de ouvir voz humana. Entretanto, sua confian\u00e7a em Taptuk pouco a pouco o deixou. Este homem, decididamente, o enganara. Ele n\u00e3o tivera jamais a inten\u00e7\u00e3o de ensinar-lhe o que havia prometido. &#8220;Perco minha vida a esperar&#8221;, se disse ele.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Cinco anos ainda, varreu o p\u00e1tio, sem que ningu\u00e9m o escutasse. Uma noite, cansado dessa miser\u00e1vel exist\u00eancia e convencido de que ningu\u00e9m se aperceberia de sua aus\u00eancia, decidiu deixar aquele lugar onde, depois de quinze anos de humilde paci\u00eancia, n\u00e3o havia encontrado sen\u00e3o amargura e melancolia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Ele se foi pela noite, caminhando sempre em frente. Andou at\u00e9 o amanhecer, embriagado de liberdade sem esperan\u00e7a. Sentiu fome e sede mas n\u00e3o havia nenhuma fonte onde saciar-se, nenhum abrigo onde pudesse refazer as for\u00e7as neste infinito deserto de ervas amarelecidas, pedras e vento.<br>&#8220;Vou morrer, se disse. Que importa? Mais vale morrer caminhando do que varrendo o p\u00e1tio de um louco&#8221;. Andou, por tr\u00eas dias inteiros. Na noite do terceiro dia, no momento em que ia deitar-se sobre um rochedo para oferecer seu corpo extenuado aos abutres, percebeu ao longe um acampamento. Surpreendeu-se. Nenhum viajante viria a essas terras. Quem poderiam ser essas pessoas? Aproximou-se. Viu homens sentados na entrada de uma grande tenda. Festejavam rindo e falando alto. Quando o viram, fizeram sinal e, gritando alegremente , convidaram-no a compartilhar sua refei\u00e7\u00e3o. Frutas deliciosa, assados apetitosos, bebidas de todas as cores em frascos de vidro estendiam-se\u00a0 em profus\u00e3o sobre<br>um tapete de l\u00e3. Yunus acercou-se deles, bebeu, comeu, e finalmente ousou perguntar a essas pessoas por qual milagre, neste deserto hostil, eles se achavam assim providos de alimentos t\u00e3o raros, como ele jamais havia experimentado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00a0\u00a0\u00a0 Uma voz conduziu-nos aqui, disseram-lhe. Com certeza \u00e9 o melhor lugar do mundo. Todos os dias o vento nos traz de longe os cantos de um dervixe desconhecido. Basta escut\u00e1-los e cant\u00e1-los que logo aparecem diante de n\u00f3s todas essas iguarias suculentas que voc\u00ea v\u00ea. ser\u00edamos loucos, se f\u00f4ssemos viver noutro lugar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Yunus extasiou-se, confessou que jamais conhecera magia igual e atreveu-se a perguntar a seus companheiros se eles poderiam ensinar-lhe tais cantos para que ele n\u00e3o morresse de fome pelo caminho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 &#8211; Com prazer, responderam os homens. E se puseram a cantar. Ent\u00e3o Yunnus, com os olhos arregalados e a boca aberta, ouviu os cantos que ele mesmo inventara durante cinco anos, varrendo o p\u00e1tio do monast\u00e9rio. Reconheceu as mesmas palavras que pronunciara com o \u00fanico desejo de enganar a solid\u00e3o. M\u00fasicas nascidas do seu cora\u00e7\u00e3o, na esperan\u00e7a de espantar a melancolia. Eram a sua obra. No mesmo instante ele compreendeu para qual trabalho ele estava neste mundo, experimentou a pura verdade de sua alma e sofreu a pior vergonha pensando em Taptuk que o havia instru\u00eddo, sem que ele percebesse, como a um filho infinitamente amado. Ent\u00e3o abra\u00e7ou e beijou os homens que o haviam acolhido e voltou ao monast\u00e9rio correndo e chorando. &#8220;Taptuk me perdoar\u00e1 por eu ter duvidado dele? se dizia ele, bebendo o vento. Algum dia ele me perdoar\u00e1?&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; J\u00e1 era noite quando chegou \u00e0 porta carcomida que fechava a pali\u00e7ada. Bateu chamando e pedindo piedade. O rosto de esposa&nbsp; de Taptuk apareceu em cima do muro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; -Eis que est\u00e1 de volta, Yunus, disse ela docemente.&#8221;Pobre crian\u00e7a! N\u00e3o sei se Taptuk o aceitar\u00e1 de novo entre n\u00f3s. Sua partida o desesperou.'&#8221;Que desgra\u00e7a, disse-me ele, meu filho mais querido deixou-me. Que vale a minha vida daqui para frente ? &#8220;Vou abrir. Voc\u00ea vai dormir na poeira do p\u00e1tio. Amanh\u00e3, quando seu mestre fizer o passeio matinal, vai bater o p\u00e9 no seu corpo. Se ele disser: &#8220;Quem \u00e9 este homem?&#8221;, ent\u00e3o, voc\u00ea dever\u00e1 partir para sempre. Mas se disser: &#8220;\u00c9 voc\u00ea, meu bom Yunus?&#8221;, ent\u00e3o saber\u00e1 que pode outra vez viver em sua presen\u00e7a. Entre, meu filho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Yunus deitou-se na poeira do ch\u00e3o. Ao amanhecer viu aproximar-se Taptuk, o cego, com sua esposa. Fechou os olhos, sentiu um p\u00e9 contra suas costas e ouviu:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &#8211; \u00c9 voc\u00ea, meu bom Yunus?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ele se levantou inebriado de luz e de felicidade, correu para sua vassoura e come\u00e7ou novamente a varrer o p\u00e1tio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Assim ele fez at\u00e9 sua morte, sem falhar um \u00fanico dia, quando se tornou semelhante ao p\u00f3 mil vezes levado pelo vento, seus cantos se elevaram, invadiram os lugares onde viviam os homens e os nutriam com uma bondade t\u00e3o perseverante que ainda hoje, nove cidades na Anat\u00f3lia reivindicam o privil\u00e9gio de ter em seu territ\u00f3rio o verdadeiro t\u00famulo de Yunus Emr\u00e9, o homem que Taptuk, o cego, iluminou.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Yunus Emr\u00e9, em tempos muito antigos, inventou contos mais dur\u00e1veis que a mem\u00f3ria de sua pr\u00f3pria vida. 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